Fragmentos de memória, caminhos de liberdade
Casa cheia no dia do Show em comemoração aos 40 anos da banda Karne Krua | Foto: Blenda Bittencourt
A mais icônica música de Júpiter Maçã, referência do rock gaúcho, é aquela em que ele fala sobre sua caminhada pelas ruas de São Paulo, em busca de um lugar onde iria beber uma cerveja, ficar louco, encontrar uma boa e bela companhia e curtir uma música. Um Lugar do Caralho.
O que ele provavelmente não imaginava é que esse lugar está há mais de 2 mil quilômetros de distância, no centro de Aracaju, mais precisamente no número 151 da rua Santa Luzia.
Esse endereço abriga o berço da cena rock underground sergipana. Um espaço que, não apenas pela qualidade dos artistas que recebe, ou pelo público apaixonado, mas por seus quase 40 anos de resistência e fomento cultural, é, definitivamente, um lugar do caralho.
A Freedom Discos, ou Freedom Rock Tattoo, nasceu como uma pequena loja de garagem dedicada à venda de discos punk e metal, mas, ao longo de sua trajetória, tornou-se algo muito maior. Ao colocar os pés lá pela primeira vez, é impossível não se impressionar – a começar pela estética: Uma casa antiga, de estilo arquitetônico eclético típico do centro da cidade.
As poucas paredes que não foram devoradas por discos, camisas ou CD’s são estampadas por padrões geométricos que remetem à trajetória do proprietário Sílvio “Suburbano” Campos como fanzineiro underground, e travam uma batalha silenciosa pela atenção dos visitantes.
Ao lado da entrada há um corredor que abriga exposições mensais de artistas sergipanos. Ele leva a uma ante sala decorada do chão ao teto com cartazes, pôsteres, recortes de jornais, fotografias e obras de arte, além de discos colados no teto e nas paredes, que condensam em suas fibras e ranhuras décadas de produção cultural independente.
Finalmente, a última sala da casa concentra o estúdio de tatuagem de Wendel Campos, filho mais velho de Sílvio.
Aberta de segunda à sábado, a Freedom recebe seus primeiros visitantes logo pela manhã, e Sílvio segue tocando a loja até sair para almoçar. É comum já ter alguém à sua espera no momento em que retorna, seja à procura de discos, CDs e camisas, ou apenas para beber uma cerveja e jogar conversa fora.
Quando cai o crepúsculo, do lado de fora, a rua Santa Luzia já começa a ganhar novas feições. A silhueta da Catedral, recortada pela mistura explosiva entre o laranja e roxo do final de tarde, projeta um ar quase gótico para o cenário.
lá dentro, um perfume de incenso preenche os cômodos.
Nesse momento, os visitantes assistem e comentam os clipes que passam na TV, ou se preparam para o apagar das luzes. De conversas triviais como essas, já nasceram amizades, romances e, principalmente, bandas. Muitas bandas.
Um visitante de primeira viagem talvez nem imagine, mas o anfitrião é o vocalista da lendária Karne Krua – a banda punk mais antiga no estado, ainda em atividade. A paixão de Sílvio pela música reflete nas trocas com os clientes, que sempre deixam a loja sabendo muito mais do que antes de entrar.
Certa vez, para saber o preço de uma camisa, apontei em direção a ela e disse que não sabia falar o nome da banda – era Siouxsie and The Banshees. Em um comércio qualquer, a resposta se limitaria ao preço, mas na Freedom as coisas funcionam de um jeito diferente: Sílvio tece comentários sobre a banda, conta curiosidades e indica outros artistas.
Nessas conversas, o que brilha é a sua face de curador e guia de descobertas musicais.
Entre as tantas pessoas que fazem parte dessa comunidade, estão as Irmãs Ana Izabel e Fernanda. Tudo começou em 2019, quando as duas assistiram ao show Ocupe a Praça, da The Baggios, em comemoração aos seus 15 anos de estrada.
Foi uma noite especial, em que a jovem Nandão – como gosta de ser chamada –, sentiu estar em seu primeiro show de “adulta”, uma experiência de fazer brilhar os olhos: “Foi um momento em que observei aquele espaço, cheio de pessoas com quem eu queria parecer, e pensei em como me identificava com elas. A música era mais do que apenas um rock muito bom; era um rock que falava da gente”. Desde então, ela e a irmã se envolveram cada vez mais com a cena local, e a Freedom foi indispensável nesse processo.
Cortamos para 2021. Izabel estava à procura de lugares que vendessem vinil em Sergipe. Ela já conhecia a Freedom apenas de nome, mas não pessoalmente, e foi conhecê-la acompanhada pelo pai.
“Sílvio recebeu a gente. Nesse dia, apesar de ainda não ter um aparelho para ouvir, comprei meu primeiro vinil, um do A-ha, porque o preço estava muito bom. Ele nos mostrou um toca-discos que tinha lá, falou da marca e me deu umas dicas. E foi assim que comecei a frequentar a Freedom”, conta.
Como uma amante de rock, ela ficou fascinada com o que encontrou, e não demorou muito para apresentar à irmã um lugar que parecia ter sido feito para ela.
Izabel conta que viu o disco "Os Instrumentistas" na Freedom e o ganhou de presente do pai e da irmã. Foi uma aquisição mais do que especial, porque a capa foi assinada por seu tio, o fotógrafo Fernando Souza. | Fotos 1 e 2: Arquivo pessoal
Juntas, as irmãs fizeram o fanzine “Rock Sergipano in Cordel”, com Izabel assinando os versos e Fernanda o design | Foto: Blenda Bittencourt
Conversando com Fernanda, percebi uma coisa curiosa que temos em comum: conhecemos o rock ainda muito jovens, e alimentamos nosso acervo mental durante deliciosas madrugadas vasculhando o Youtube, pulando de vídeo em vídeo e descobrindo bandas por recomendações aleatórias e vídeos de qualidade duvidosa – uma realidade bem diferente das gerações anteriores, que tinham uma relação muito mais sólida com locadoras e mídias físicas.
As duas irmãs estão entre os tantos frequentadores da Freedom fazem parte do movimento de resgate do vinil, que ganhou força em resposta ao imediatismo imposto pela tecnologia ao longo das últimas décadas.
O ritual vinílico provoca o fascínio dos ouvintes porque a experiência ultrapassa a audição. Ela envolve o cafezinho da tarde, a procura pelo disco perfeito para o momento, a admiração do encarte, o toque cuidadoso, e claro, a escuta livre de distrações e interrupções.
O que talvez passe despercebido é que esses rituais costumam surgir bem antes do café da tarde, em espaços como a Freedom. Personalidades se cruzam e trocam figurinhas, descobrem artistas que mudam suas vidas, e às vezes são encorajadas a dar seus primeiros passos na música.
Colocar um disco na agulha é também revisitar as histórias que o levaram até as suas mãos – uma dinâmica em que nada é automático: tudo é consequência da convivência e do acaso.
O atual endereço da Freedom é também o mais longevo; porém, até chegar aqui, um longo caminho foi percorrido. A loja nasceu no bairro Cirurgia, sob o nome de Lòkaos: uma união estilizada entre as palavras “local” e “caos”. Sílvio não tinha grandes pretensões; tocar um negócio era como um hobby.
Filho de um trombonista, apesar de harmonias, melodias e ritmos não serem assuntos comuns dentro de casa, observar o Sr. José Campos em atividade foi um dos fatores que fez Sílvio se interessar por música ainda na infância.
Fora de casa, ela parecia segui-lo por todos os lugares. Ele costumava assistir filmes western – os famosos “bangue-bangue” ou “faroeste” – no cinema de sua cidade, e assim conheceu o trabalho dos compositores Hugo Montenegro e Ennio Morricone. Nos intervalos das sessões, o jazz e as canções da jovem guarda que ecoavam pelo cinema também caíram no seu gosto.
Seus irmãos Wellington e Beto trabalharam na loja de discos Som Pop e fizeram parte de bandas de baile, os ancestrais mais recentes das primeiras bandas de rock do estado. Observando a rotina dos irmãos, Sílvio fez os primeiros contatos na música, começou a construir seu acervo pessoal e conheceu de perto o circuito comercial do vinil.
A década de 1980 marcou o surgimento das primeiras bandas de rock autoral em Sergipe. Aos poucos, músicos e fãs formavam uma grande rede de colaboração, e Sílvio estava entre os personagens mais ativos desse processo.
Os primeiros anos não foram fáceis – os equipamentos custavam muito caro e os músicos chegavam a improvisar pedais de guitarra para poder tocar; além disso, o som rasgado e distorcido era uma novidade que tirou do sério muitos técnicos de som acostumados com guitarras limpas. Sílvio sempre quis passar as mensagens das músicas de forma clara, mesmo fazendo distorção na voz, e isso foi um pouco complicado no começo – ele chegou a cantar sem microfone algumas vezes, o que era desgastante.
Seu interesse pela música punk surgiu depois que pegou a coleção de discos de um dos irmãos e começou a ler enciclopédias e revistas de rock. Em 1985, Sílvio fundou a Karne Krua ao lado dos músicos Marcelo Gaspar, Tony Almada e Vicente Coda. Registro do acervo de fanzines de Sílvio. | Foto: Blenda Bittencourt
Como fomentador cultural, ele participou das organização de festivais independentes, como o Festcore, que teve 5 edições, contribuindo para a circulação das bandas, em uma época que ser “rocker” era algo extremamente subversivo – houve casos, por exemplo, em que a polícia perseguia músicos ou participantes da cena por conta das roupas que usavam.
Sílvio também se destacou como fanzineiro, sendo responsável por títulos como Buracaju, Microfonia e Ultralibido, publicações que abordavam temas ligados à contracultura, como a música autoral local, ideias anarquistas, e no caso do último, sexualidade e erotismo.
Existia uma rede de compartilhamento muito forte entre os fanzineiros no Brasil, e Sílvio conta que trocou correspondências com pessoas de diferentes estados:
Uma matriz é a edição original do fanzine ou uma cópia com muita qualidade, que é replicada durante as tiragens. Existe um cuidado com o uso das cores na diagramação dos fanzines, por exemplo, porque algumas cores se destacam mais do que outras quando são feitas as cópias em preto e branco. Esse foi um dos pontos que Sílvio explicou durante uma oficina sobre fanzines realizada na Freedom em 2025.
Era um câmbio nacional. Eu recebia fanzines de quase todas as capitais, umas menos, outras mais, mas todo mundo tinha uma ligação; teve até encontro de fanzineiros. Às vezes, o cara não tinha condições de fazer muitas cópias e mandava uma matriz. Quando a gente gostava muito do fanzine e a pessoa só tinha uma cópia, a gente reproduzia pra poder repassar.
No meio disso tudo, em 1987, o caos era instaurado na garagem de uma de suas tias: Nascia a Lokàos.
Em uma das fases da era Lòkaos, a loja funcionava na Galeria Lima, já no centro da cidade. No corredor, uma placa deixava uma mensagem calorosa aos visitantes: “Lokàos: A destruição mais perto de você!”
A frase era acompanhada pelo desenho de “um urubu, meio abutre, podrão, com esparadrapo na barriga e uns vermes”, como Sílvio descreve – bastante convidativo!
Essa arte entregava a postura de contestação e resistência do proprietário, também refletida na variedade dos produtos, que não se restringiam às bandas de grande alcance comercial. Como Sílvio costuma dizer, ele não queria fazer um som “bonitinho”, mas o oposto disso.
Registro da edição nº13 do fanzine Buracaju. O desenho foi feito por Markus Tattoo e foi estilizado por Sílvio. Além de aparecer em fanzines, estampou o selo da Lókaos. Muitos dos discos vendidos até o começo dos anos 2000 foram marcados por essa imagem. | Foto: Blenda Bittencourt
Anúncio da Lokàos no jornal SIC - Mídia Impressa Alternativa, 1992. Encontrado em um exemplar do jornal, presente no acervo do Arquivo Público de Sergipe | Foto: Blenda Bittencourt
A Lókaos se estabeleceu como um ponto de incentivo à música independente, e destino frequente dos jovens que se aproximavam do circuito underground sergipano. Entre eles estava Rafael Júnior, que anos depois fundaria a banda Snooze ao lado do irmão Fábio (vocal e baixo) e do amigo Daniel Garcia (guitarra).
No início dos anos 90, ele dava seus primeiros passos na bateria, fazendo aulas na academia Carlos Gomes. Seu professor? Valdeleno, baterista da Karne Krua na época. Fascinado com o som pesado da banda e com a performance explosiva de Sílvio, Rafael começou a se envolver com a cena.
Das visitas à Lókaos, desenvolveu uma relação de amizade com Sílvio e se tornou um frequentador da loja. Ele revela que lá encontrava tesouros para sua vasta coleção de vinis:
Lá você encontrava os selos de grandes gravadoras, e também os independentes, como o Cogumelo Records, um selo de Belo Horizonte que lançou bandas como Sepultura e Pato Fu. Às vezes, aparecia alguém à procura de Leandro e Leonardo, Zezé de Camargo, mas ali não vendia essas coisas, era uma loja especializada em rock. Essa rede de distribuição underground só existia na Lókaos, e por isso eu sempre priorizei comprar lá.
Ainda nos anos 90, a jovem Daniela Rodrigues (Renegades of Punk) começava a construir sua identidade no rock através de conversas com coleguinhas na escola. Alguns de seus amigos costumam dizer que o que ouvimos primeiro determina se vamos para o metal ou para o punk.
Ela até ouviu bandas como Iron Maiden e Black Sabbath, mas, conheceu os Ramones antes, e diz que seu coração pertence a eles – o que faz muito sentido, porque ela construiu uma grande trajetória na música punk.
Em meio a uma dessas rodinhas na escola, ela ouviu falar de uma banda punk da cidade, “uma tal de Karne Krua”, que tinha um “coroa” nos vocais – detalhe que neste ponto da história, Sílvio estava nos seus 30 e poucos anos, mas essa era a descrição do ponto de vista dos pré-adolescentes.
Por causa disso, até ter liberdade para frequentar os rolês da cidade e finalmente assistir a um show, Daniela imaginava um senhor bem velhinho sempre que pensava na banda.
Ela conheceu a Freedom alguns anos depois, época em que a loja ficava em frente ao Edifício Futuro, e sempre que passava por lá sentia aquela timidez típica dos jovens diante das figuras que admiram. O tempo passou e seu envolvimento com a música só cresceu.
Daniela tornou-se uma admiradora e frequentadora da Freedom, e a Renegades of Punk é uma entre as várias bandas que recebeu apoio de Sílvio, virando atração frequente nas noites de música promovidas pela loja.
No início de sua vida adulta, Daniela fundou a banda Lily Junkie ao lado de três amigas. Este vídeo mostra um trecho do show de abertura da Lily Junkie para a Inkoma, banda da qual a Pitty fazia parte antes de seguir carreira solo. Os registros foram feitos por Adelvan “Kenobi” Barbosa, amigo de longa data de Sílvio e criador do fanzine Escarro Napalm, mais tarde transformado em blog. No dia em que o entrevistei, ele me contou dessa fita e nós a assistimos.
Rafael e Daniela são apenas dois dos inúmeros expoentes da cena rock underground Sergipana, e o que todos eles têm em comum é a influência direta ou indireta que a Freedom exerceu sobre sua relação com a música. Alguns no campo pessoal, outros no profissional – ou até mesmo em ambos os casos.
A fotografia não era algo acessível nesses primeiros anos de trajetória da Lókaos, então os poucos registros se perderam em meio a mudanças, recortes de jornais e cartazes velhos – é difícil, inclusive, reconhecer os pontos em que a loja esteve, mesmo tendo em mãos os endereços; mas Sílvio ainda consegue identificar cada um deles.
Clique nos botões para ver como estão as fachadas dos antigos endereços atualmente.
O surgimento e a popularização do Compact Disc (CD) fez o mercado do vinil começar a enfraquecer ainda no final dos anos 80, até despencar de vez nos anos 90, fazendo com que as lojas profissionais desaparecessem aos poucos. Foi nesse contexto de transformações que a Lókaos atravessou algumas crises.
Uma dos episódios mais marcantes lembrados por Sílvio ocorreu quando a loja funcionava em frente ao Edifício Futuro, já sob o nome “Freedom”. Ele foi pego de surpresa ao abrir o portão e ver coisas caindo sobre seus pés. O estoque de discos foi levado pelos invasores, que deixaram para trás apenas camisas.
Outra grande dificuldade enfrentada nos primeiros anos era a localização. A loja passou por algumas galerias, sempre em salas meio escondidas, o que dificultava o acesso.
Houve um período em que a renda de Sílvio também dependia da venda de livros da área da medicina, e uma crise no mercado o fez abandonar o comércio por um tempo. O ponto foi passado para o amigo Adelvan, mas sua administração não durou muito, e Sílvio resolveu se organizar financeiramente para reabrir a Freedom.
Sem estoque, foi através de trocas e da venda consignada de discos valiosos cedidos por amigos que a loja se manteve de pé por um bom tempo. Foi uma forma inovadora de comércio, porque os estabelecimentos profissionais não trabalhavam com discos usados, tampouco com o “escambo”, como Sílvio costuma dizer.
Depois das experiências com galerias, ele afirma que a rua Santa Luzia foi o melhor local em que teve comércio, porque é bem visível e a própria estética da loja provoca uma “propaganda natural” entre os transeuntes.
Com um estalar de dedos, chegamos ao início de 2020, que foi marcado por um grande gesto da comunidade underground em apoio a Sílvio.
Enfrentando um câncer, ele descobriu que precisava passar por uma cirurgia, e amigos próximos realizaram uma edição beneficente da Casa do Rock – uma festa privada que acontece de tempos em tempos em Aracaju.
Esse não é exatamente um evento underground, mas muitos dos participantes são envolvidos com a cena, e os ingressos são vendidos apenas para amigos e familiares. Entre os responsáveis pela iniciativa estavam a sua esposa, Cycy, o amigo Lucas Passos e o núcleo organizador, composto por Rafael Júnior, Marcus Vinícius (Vinnas), Belarmino, Marcos Linhares e Marco Diniz.
Card de Divulgação | Foto: Acervo Rock Sergipano em Cartaz
Card de Divulgação | Foto: Acervo Rock Sergipano em Cartaz
A mobilização foi imediata: amigos adquiriram ingressos para contribuir com a arrecadação – alguns compraram mais de um, mesmo indo sozinhos; outros compraram mesmo sem saber se poderiam comparecer. Parte do valor cobriu os custos do evento e o restante foi destinado a Sílvio para auxiliar com o tratamento.
Nada havia sido revelado até aquele dia, claro. Ele levou sua banquinha de discos e camisetas como faria em qualquer outro festival, sem imaginar o que estava prestes a acontecer – e esse foi apenas um dos vários momentos em que a cena segurou a mão de seu principal incentivador.
Pouco tempo depois, a rotina da loja foi atravessada por outra crise. Sílvio enfrentava sessões de radioterapia quando vivemos o início da pandemia de Covid-19, o que o colocou numa posição mais vulnerável.
Quando a situação se agravou, a Freedom foi obrigada a fechar as portas e, sem clientes circulando, o dinheiro parou de entrar. Como tantos outros comerciantes, ele chegou a pensar que aquele poderia ser o fim de tudo que havia construído.
Temendo que isso acontecesse, a comunidade voltou a se mobilizar, apoiando a campanha Ajude a Freedom e outras pequenas iniciativas, que incluíam a venda de máscaras e a realização de sorteios. “Eram coisas do tipo ‘Compre um voucher de cerveja e concorra a um baú da Freedom’. Também fiz camisas. Foram as formas que encontrei para sobreviver”, Sílvio explica.
Ele não era uma pessoa muito familiarizada com redes sociais, mas acatou a sugestão de usar o Instagram como um canal de divulgação da campanha e dos produtos, o que funcionou bastante. Acostumado com rostos familiares admirando os discos nas paredes, estranhou os nomes desconhecidos que surgiam nos pedidos – eram os novos clientes chegando.
“Foi uma surpresa. Para quem frequentava desde a adolescência, foi tipo: Como assim você gosta de rock e não conhece a Freedom? Todo mundo conhece! Parecia uma ideia absurda. Mas, percebemos que era uma geração nova, que não tinha uma conexão forte com o físico e que costuma comprar pela internet”, explica o amigo Lucas Passos.
Nesse período, uma rede de colaboradores se formou em torno da campanha Ajude a Freedom. O card de divulgação circulou pelas redes sociais com uma legenda escrita por Adelvan, enquanto o amigo Saulo “Selfie” – conhecido por tirar muitas fotos – ficou responsável pelas entregas. Enquanto isso, Lucas auxiliou Sílvio com as questões administrativas da loja, que tentava se recuperar.
Seja pelas compras, aquisição de vouchers, ou ainda, literalmente, vestindo a camisa da loja, cada frequentador contribuiu para manter a Freedom viva.
Card de divulgação da campanha “Ajude a Freedom”, assinado pelo designer Raul Matos
Card de divulgação da campanha “Ajude a Freedom”, assinado pelo designer Raul Matos
Alguns registros de sorteios realizados nesse período. | Fotos: Reprodução Instagram
Quando os estabelecimentos retomaram a rotina presencial, de forma despretensiosa, nasceu o carro-chefe das atrações culturais que viriam a aquecer os finais de semana underground. A banda Dry Blues, projeto formado por Max “Dry” Guimarães, Sílvio, Júlio Gomes e Matheus Messias, realizou a primeira apresentação musical da história da Freedom.
Aquilo era um suspiro de alívio em meio aos efeitos claustrofóbicos do isolamento, mas as coisas estavam apenas começando a se flexibilizar, então todos mantinham o distanciamento social e usavam máscaras – com exceção de Sílvio, que cantava.
Sendo ouvinte de tantas histórias, por vezes me peguei pensando sobre como o carinho do público transcende os gestos de apoio à loja e se direciona pessoalmente à figura por trás dela.
Sílvio é uma pessoa amada em voz alta, literalmente: Existe um registro dessas demonstrações de afeto, que curiosamente aconteceu justo nessa primeira sessão musical. No intervalo entre as músicas, o público se declarava para o blueseiro.
“Não lhe disse que te amo hoje”
“Também não”
“Você é um cara INOXIDÁVEL, Sílvio” (confesso que foi a primeira vez que vi essa palavra sendo usada como elogio).
O áudio captado no dia foi editado e publicado no Youtube, em comemoração à marca de 200 Freedom Sessions, atingida em dezembro de 2025.
Trazer atrações musicais para a loja era uma ideia que pairava na mente de Sílvio muito antes de todos esses acontecimentos, e o surgimento das Freedom Sessions reacendeu aquela chama dos “anos dourados” da cena.
Antigamente, a loja fechava bem cedo, só que o fim do expediente foi postergado organicamente. As pessoas papeavam e, seguindo a ideia de sua esposa, ele comprou um frigobar. Era durante a cervejinha de fim de tarde que, conversa vai, conversa vem, alguém sugeria fazer um som para animar.
Na época, ele não conhecia outros projetos de Live Sessions, mas além de ouvir essa sugestão de vários amigos, também se inspirou em suas próprias experiências como músico fora do estado:
“Nos momentos em que viajei para São Paulo e Rio Grande do Sul, eu percebi que tocava em lugares muitos pequenos, até que pensei: ‘Velho, aqui é menor que a Freedom, então por que não tocar na minha loja?’ E aí, a primeira session foi chamada de Blues da Liberdade. A banda de um lado e o público do outro… o espaço era ainda menor do que é hoje’’, Sílvio relembra.
Após a apresentação da Dry Blues, esses eventos tornaram-se cada vez mais frequentes, e a palavra “session” só foi atribuída a eles a partir da décima primeira edição, mas não da forma como conhecemos hoje – Eram as “Sessions da Freedom”. Não havia uma periodicidade regular, elas aconteciam quando era possível, mas a ideia foi um sucesso e mudou completamente a dinâmica do espaço.
Nos dias de session, a Freedom deixa de funcionar apenas como loja, e abre espaço para que os artistas apresentem seu trabalho autoral, algo que é frequentemente desestimulado em pubs e casas de show tradicionais.
Em 2025 surgiu uma ótima oportunidade para intensificar as atividades artísticas realizadas na loja. Foi por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), executada em Sergipe pela Fundação de Cultura e Arte Aperipê (Funcap), que nasceu o projeto do Ponto de Cultura da Liberdade.
Instituída em 2022, pela lei nº 14.399, a PNAB surge com o intuito de ampliar o legado deixado pela da Lei Aldir Blanc (LAB), que trazia medidas emergenciais de apoio aos vários setores da cultura diante das dificuldades enfrentada na pandemia de COVID-19.
Diferente da LAB, a Política Nacional Aldir Blanc tem um caráter permanente, e prevê o repasse anual de 3 bilhões de reais – totalizando 15 bilhões de reais até o ano de 2027 – para editais de fomento à cultura e para a realização de eventos e manutenção de espaços culturais por todo o Brasil.
O Ponto de Cultura da Liberdade concorreu ao Edital de Chamamento Público Nº 08/2025 para seleção de espaços, ambientes e iniciativas artístico-culturais que receberiam recursos da PNAB. Embora a Freedom seja também um estabelecimento comercial e, por isso, não pudesse ser oficialmente reconhecida como ponto de cultura, as atividades propostas pelo projeto puderam ser cadastradas no Mapa Cultural de Sergipe para participar da seleção.
O título do projeto entrou na história como uma resposta aos “anos de contribuição” da loja para a cena. Particularmente, depois dos longos meses de observação, entendo isso perfeitamente. É completamente possível passar uma manhã, tarde ou noite na Freedom sem efetuar uma compra, porque a experiência de estar lá transcende o consumo – é unanimidade entre os frequentadores que o espaço se trata de um patrimônio cultural.
Concorrer em um edital como esse já tinha sido assunto entre ele e amigos envolvidos com as atividades da loja, mas nunca levado adiante até então. Faltando apenas 3 dias para o fim do prazo de inscrições, Alessandro Santana, o “Cabelo”, foi surpreendido por uma ligação com o convite para integrar a coordenação do projeto.
Com a equipe formada, Sílvio, Max “Dry” Guimarães, Lucas Passos e Cabelo definiram os três eixos culturais da programação – música, cinema e artes visuais – e as seis atividades através das quais eles se apresentaram.
Foi um final de semana intenso. Prazo apertado, Max viajando, e boa parte da comunicação acontecendo via whatsapp. Mesmo assim, eles deram conta do trabalho e redigiram o documento com a apresentação do projeto, detalhando as atividades propostas e os profissionais envolvidos.
Max foi o primeiro a ver o resultado, mas demorou um bocado para encaminhar aos colegas, porque não acreditou no que viu – na verdade, ele pediu para que sua companheira confirmasse que ele não estava cego. O projeto não apenas foi aprovado, como também foi o primeiro colocado da lista.
A Freedom passou por algumas intervenções para se tornar um espaço mais acessível e dar início às atividades. O guitarrista da banda Dry Blues, Júlio Gomes, é arquiteto, e foi o responsável pelo projeto da rampa de mobilidade colocada na entrada do Corredor Contracultural e da reforma dos banheiros, que foram adaptados para cadeirantes.
Embora as reformas tenham se concentrado na acessibilidade física, a equipe viu nessa onda de mudanças uma oportunidade para enfatizar, através de pequenas ações, valores que já estavam presentes na forma como Sílvio conduzia o espaço e sua própria carreira como músico e fomentador cultural. Eles adaptaram uma ideia da internet de uma plaquinha indicando que as pessoas usem o banheiro onde se sintam mais à vontade:
“A ideia era que as pessoas trans se sentissem à vontade para usar o banheiro que quisessem. O meio do rock ainda tem muitas pessoas conservadoras, que não são abertas para essas questões de gênero e sexualidade, e Sílvio sempre foi firme nesse ponto: O próprio nome da loja, ‘Freedom’, já diz tudo”, Lucas explica.
Havia chegado, então, o momento de tirar as coisas do papel.
Equipe por trás do ponto de cultura da liberdade. Da esquerda para a direita: Lucas Passos, Max Guimarães, Sílvio e Alessandro Santana. | Foto: Blenda Bittencourt
A liberdade nos pequenos detalhes. Registros das paredes da loja. | Fotos: Blenda Bittencourt
O Ponto de Cultura da Liberdade deu início às atividades em setembro de 2025, com previsão para encerramento em abril de 2026. Cada programação era lançada nas redes sociais com direito a trilha sonora que você, caro leitor, já conhece: Júpiter Maçã - Um Lugar do Caralho.
O Corredor Contracultural abria os meses trazendo o trabalho de artistas plásticos e visuais, fotógrafos e artesãos sergipanos. É bastante comum encontrar pessoas investigando as paredes da Freedom, atenta aos detalhes, então as exposições apresentaram os visitantes com mais possibilidades de descobertas.
A cada montagem, a loja ganhava uma nova aparência. Fotografias, recortes, desenhos e objetos passaram a dividir espaço com os cartazes e discos espalhados pela loja.
Além de expor, os artistas tinham a opção de disponibilizar suas obras para venda, e toda a verba arrecadada retornava para os autores.
Uma vez por mês, o público se reuniu para assistir a filmes dirigidos e/ou produzidos por sergipanos ou pessoas radicadas em Sergipe. Ao final das sessões, uma roda de conversa estimulava o debate e a troca entre os visitantes e os organizadores.
A programação transitou entre diferentes gêneros e épocas. Foram projetados clássicos como Durval Discos (2002) e Black Sabbath (1963), que inspirou o nome da banda pioneira do heavy metal. Uma cinepalestra e produções locais independentes também passaram pela tela – entre elas, curtas de terror da produtora sergipana Aratu Filmes.
Através do cineclube, o público revisitou ainda a trajetória da Karne Krua, as origens dos fanzines sergipanos e acompanhou a exibição do primeiro episódio de uma série documental dedicada ao percussionista e educador musical TonToy.
Registros da exibição de filmes em comemoração aos 40 anos da Karne Krua | Fotos: Blenda Bittencourt
Ao longo dos 8 meses, a Freedom foi cenário de finais de semana intensos. O público teve acesso a mais de 40 atrações de diversos estilos, fazendo jus à pluralidade musical que já permeava a loja muito antes das sessions sequer existirem.
Além da contribuição voluntária dos visitantes através do couvert, os recursos do edital possibilitaram o pagamento de cachê para os músicos e a produção de um videoclipe com registros das apresentações, valorizando ainda mais seu trabalho.
Cabelo, que possui um extenso currículo de produções audiovisuais, se responsabilizou pela gravação e edição. As imagens eram registradas com seu próprio celular e sincronizadas com o áudio captado, e os vídeos prontos foram disponibilizados no canal da Freedom no Youtube.
As sessions costumam acontecer nas sextas e sábados, no comecinho da noite. Alguns frequentadores costumam brincar que isso é muito bom, porque “já estão velhos e gostam de voltar para casa cedo”, ou fazem parte de um curioso grupo de jovens que gostam de dormir antes da meia noite (como essa que vos escreve). Mas, a grande motivação para isso é, na verdade, o fato de que a Freedom está localizada numa rua residencial, então está cercada por casas e apartamentos.
Bem ao lado funciona a pastelaria do Seu Jussiel, que é o ponto de encontro para um lanchinho durante os shows. Algumas atrações lotam a casa, e enquanto alguns visitantes dançam pertinho da banda, outros se sentam às mesas de lá para comer e bater papo enquanto ouvem as músicas.
Durante a apuração, Sílvio e eu fizemos um tour pelo centro, para que ele me apresentasse os antigos endereços da Freedom.
Nesse dia, entre as anedotas do passado, o principal assunto foi a evidente degradação e descaracterização do centro da cidade – os prédios públicos sofrem com o abandono e a falta de manutenção, enquanto as ruínas de casas desabitadas viram estacionamentos.
Sílvio diversas vezes demonstrou descontentamento com a situação do bairro. Pontuou o esvaziamento e o empobrecimento arquitetônico das áreas comerciais, causados pelas reformas e pelos toldos de plástico que poluem visualmente as ruas, e relembrou ainda, sua experiência com tal sinal de “progresso”: Ele contou que, um dia, observou um pessoal instalando um toldo de plástico em uma loja próxima, e um dos trabalhadores ofereceu os serviços.
Ele, claro, não demonstrou interesse. E por isso, o nome da Freedom permanece visível no frontão da casa, enquanto a fachada da loja é desbotada pelo tempo e pelo sol.
Ao longo do dia, pessoas andam como formiguinhas, para lá e para cá, fazendo suas compras. Mas, quase imediatamente após o abaixar das portas de aço, as ruas do centro parecem verdadeiros desertos.
Alimentando a vida noturna, a Freedom vai na contramão desse movimento, e consequentemente, traz uma sensação de segurança para quem mora e quem passa pela rua Santa Luzia.
Além de tudo isso, o Ponto de Cultura da Liberdade contou com uma atividade que atravessa todas as outras: o Clube do Blues, um projeto à parte, que tinha até data de estreia marcada antes mesmo da inscrição no edital. A ideia era reunir os membros fundadores das principais bandas do cenário para uma jam session de abertura, mas o evento acabou sendo adiado.
Max Guimarães é baixista da Dry Blues e queria muito tocar guitarra. Ele brinca que o clube surgiu por conta disso, mas, além do desejo de experimentar novos ares, por trás dessa ideia havia um descontentamento com o cenário de desvalorização da música autoral.
“Para os parâmetros sociais, geográficos, enfim, o Blues é uma linguagem universal… em qualquer lugar do mundo que você vá e faça os 12 compassos de blues todo mundo vai tocar. Eu queria fomentar o gênero, formar público, mostrar que uma jam de Blues pode ser tão divertida quanto uma roda de samba. Então, reuni os amigos pra curtir”, explica o bluseiro.
Assim como outras atividades realizadas na Freedom, essa era uma iniciativa “da galera”, que antes de se oficializar cresceu gradativamente, então demandaria tempo dos participantes, manejo de equipamentos, e claro, dinheiro.
Foi então que, durante o desenvolvimento do projeto, a equipe teve a ideia de integrar o Clube do Blues ao Ponto de Cultura da Liberdade. O edital acabou agindo como um catalisador de sua fundação e ampliou suas possibilidades de abordagem.
A baterista Anita Floyder (The Lost Tapes) e o guitarrista Saulinho Ferreira (Ferraro Trio) foram convidados para compor a comissão organizadora das ações relacionadas ao clube. Cada segmento do projeto teve uma parcela dedicada ao gênero musical afro-americano, que é o mais recorrente nas sessions desde suas origens.
A cada mês, foi realizada uma oficina seguida por uma roda de conversa, trazendo sempre temáticas relacionadas ao Blues, como as suas origens, a execução de instrumentos e a história de personalidades marcantes do gênero.
Registros da roda de conversa sobre mulheres no Blues, realizada em dezembro de 2025, com participação da banda Miss Therion. | Fotos: Blenda Bittencourt
O edital da PNAB exigia a realização da Contrapartida, que é uma ação ou conjunto de serviços que os agentes culturais do projeto devem ofertar em retribuição à verba recebida. No caso do Ponto de Cultura da Liberdade, ela foi executada através da iniciativa Clube do Blues nas Escolas.
A primeira apresentação foi no Conservatório de Música de Sergipe, e a experiência em campo mostrou a equipe que cada público demandava diferentes abordagens – afinal, nem todos os estudantes tinham conhecimento teórico sobre música. Então como levar essa linguagem de forma interessante? Anita, Saulinho e Leo Lost (The Lost Tapes) são professores, o que ajudou a equipe a aprimorar a metodologia das oficinas conforme a idade dos estudantes.
Além de professora e instrumentista, Anita é também uma fã apaixonada. Nos dias de session, fica sempre pertinho dos músicos, e dança com um sorriso e um brilho nos olhos de quem realmente ama o que faz. Nos momentos de interação com os alunos, a baterista percebia que a mensagem tinha chegado. Ela conta que, certa vez, um aluno pediu a palavra e disse: “Eu não gostaria de fazer uma pergunta, mas queria dizer que, depois das aulas do professor Leo, escuto Blues todos os dias”.
Além disso, a experiência de Anita no Clube do Blues foi muito positiva não apenas pelo que ela pode agregar no sentido pedagógico, mas também pela representatividade. “O corpo feminino presente em um gênero tão masculino abre mais os espaços, sabe? As meninas vão se aproximando, porque sentem que, visualmente, esse é um ambiente mais seguro. Pessoalmente, isso tem sido o que mais me motiva, não só a continuar tocando bateria, como também a fomentar o Blues”, conta.
No mês de novembro, tive a oportunidade de acompanhar uma dessas ações na Escola Municipal de Ensino Fundamental Dr. Carvalho Neto, que contou com a participação de Sílvio, Max, Anita e Leo, além do percussionista Tonico Ogum, criador do Sucata Sonora, um projeto de educação musical sustentável.
Naquela tarde, Tonico foi o maestro das crianças e adolescentes, que tocavam instrumentos feitos com materiais reutilizados. Sem falar uma palavra sequer, através de gestos e expressões faciais, ele estimulou a percepção musical dos estudantes, que entraram em sintonia. Logo depois, rolou um pocket show de improvisação no Blues e ao final do evento alguns alunos tocaram clássicos do rock com os músicos.
Com o encerramento do edital, o Ponto de Cultura da Liberdade entrou em um período de “hibernação”. Não é um hiato propriamente dito, porque as atividades nunca pararam de vez, só seguiram em um ritmo mais leve, afinal foram 8 meses ininterruptos de agenda intensa.
Entre organizadores e público, o sentimento é de satisfação pelos novos ares que o projeto trouxe para a cena. A Freedom foi palco da estreia da banda Miss Therion, um projeto só de mulheres, formado por Anita Floyder, Vanessa Góes (Vanessa & the Soulmakers) e Beatriz Linhares. Outros diversos artistas expandiram seu público, e o coletivo Clube do Blues inscreveu três novos projetos em editais de fomento à cultura.
Quando a Lokàos surgiu, tudo que Sílvio queria era trazer para a cidade algo parecido com as lojas que conheceu nas revistas de rock. Os primeiros discos que vendeu vieram da sua própria coleção – não existia plano para as próximas décadas, tampouco o título de ponto de cultura.
Ao olhar para a Freedom de hoje, ainda é possível encontrar vestígios de cada uma de suas versões – da Lókaos da garagem e das salinhas ocultas em galerias, à Freedom que sobreviveu ao furto, às crises do mercado e à imprevisibilidade da vida.
Cada fase é lembrada por aqueles que fizeram parte dessa história com aquela nostalgia agridoce, que lamenta o que está distante e celebra o que foi construído.
Depois desses meses acompanhando tudo de perto, cheguei à conclusão de que a Freedom é um desses casos difíceis de descrever, porque tudo é muito natural. A noção da loja como espaço cultural foi cultivada com o passar do tempo, mas o que lhe garantiu esse status sempre esteve ali, independente do tempo e do espaço.
Os endereços mudaram, a cidade mudou e a cena também; mas, permaneceu a sua capacidade de reunir pessoas em torno da música e transformar encontros casuais em algo maior.
De uma conversa nasce uma amizade, da amizade nasce uma banda, alguém traz a ideia de um show, e daí pra frente, o resto é história. O que vem a seguir? Um festival? Um álbum? Você só se dá conta quando a mudança já aconteceu.
Por isso, acredito que é mais fácil conhecê-la pela experiência do que pela descrição, e deve ser por isso que as pessoas continuam voltando.
Difícil mesmo é sair de lá sem levar alguma coisa, e essa “coisa” pode ser qualquer coisa – um disco, uma história, ou planos para o futuro.
Vista da Catedral em um final de tarde na Freedom | Foto: Blenda Bittencourt
Esta reportagem chegou ao fim, mas não sem deixar vocês leitores sem mais um gostinho do que é o rock sergipano.
Clique nos botões abaixo e confira as playlists de personalidades envolvidas com a execução deste projeto e um acervo digital de fanzines sergipanos: